sábado, 2 de junho de 2012

Noite fria


"Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus."
[Clarice Lispector]

        Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Suas mãos tremiam enquanto segurava o volante. Sentia seus pés fracos e suas pernas tremiam mesmo com ela sentada no banco do carro, sentia-se mais instável do que nunca e a musica que tocava no rádio fazia todas as emoções entrarem em conflito dentro de si. 
       O trânsito era infernal! Carros buzinavam de todos os lados com a avenida refletida em pouca iluminação. De repente não conseguiu mais segurar as lágrimas, todas unidas contra ela lavaram-lhe a face trazendo um suspiro tristonho.
Se ela pudesse fazer algo por si mesma gostaria de voltar no tempo. De voltar exatamente há onze meses atras e avisar a si o quanto ela iria errar dali em diante, queria poder alertar o quanto ela mesma causaria mal para sua própria vida!  
      A triste questão é que essa alternativa não estava presente nas opções que possuía, justamente por isso chorava desesperadamente e agora com os olhos embaçados mal conseguia visualizar o caminho. For nesse momento de inercia que algo dentro dela aconteceu! Sem explicação, motivo certo, ou causa concreta ela abriu a porta do carro, a principio apenas alongar o corpo e sentir o vento frio da noite, mas acabou por gostar da sensação que o vento realizava ao tocar seu rosto secando as lagrimas que ainda insistiam em cair. Depois não viu sentido em continuar o caminho habitual, então decidiu ir a pé. 
       Entrou no carro, retirou as chaves do contato, fechou o carro e seguiu. Ouviu várias pessoas gritando e a ofendendo por abandonar o veiculo em uma avenida, como se ela se importasse com isso agora!
       Em sua vida confusa ela sempre colocou os sentimentos em lugar preferencial do que os bens materiais, logicamente sabia o quanto precisava desses bens, mas se ela havia se perdido em algum lugar qualquer no caminho, qual seria o problema de perder algo assim enquanto procurava por si? 
Sendo assim, caminhou durante alguns segundos quando percebeu que o sapato de salto a incomodava e o tirou dos pés! Ora, como era bom finalmente estar com os pés no chão! Isso tinha um significado muito mais amplo do que ela poderia pensar, estava retirando não apenas um par de sapatos novos, mas sim tudo aquilo que viesse a ser um incomodo.
       Caminhou, caminhou e ainda mais um pouco pensando em tudo que havia feito de errado naqueles meses, em tudo que poderia ter se privado de passar, na sua preservação, em tantas coisas que poderiam ser evitadas e apenas dificultaram tudo ainda mais. Quando se cansou, sentou-se em um banco velho e pensou por um breve instante se algo poderia ficar ainda pior. Começou a chover.
      Exatamente como uma típica cena de novela, a chuva caiu naquela noite fria e ela em seu estado de reflexão e abandono riu por não acreditar que aquilo estivesse acontecendo com ela desde os onze meses passados até a sua atitude de abandonar o carro e sentar em algum banco qualquer da rua. Sua risada foi alta e contagiante enquanto a chuva molhava seu corpo e sua descrença. Riu como não fazia há muito tempo, riu com o coração e não apenas com os lábios. Um riso espontâneo do qual ela não sabia o quanto sentia falta.
     Na noite fria de chuva calma ela percebeu sem rumo algum o quanto as coisas ruins da vida trazem as forças para dar sequencia em todo o resto, que também podem carregar coisas boas depois de todo o triste trajeto como se fossem prêmios por aquilo que você sozinho teve que enfrentar e ao olhar para o céu escuro da noite viu que a vida contempla cada pequeno momento presenteando com surpresas quando menos se espera. 
      Percebe então que nunca se perdeu, apenas precisou errar para aprender mais um caminho certo até que erre novamente para ganhar um novo aprendizado da surpreendente e misteriosa vida!      

22 comentários:

  1. Muito Obrigado Moni Abrão !

    Gostei muito do teu post!

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  2. Como gosto de me perder nestas tuas palavras e encontrar nelas sentimentos. É bonita a tua forma de escrita, a forma como contas estas lindas histórias. Gostei muito, Um Beijo :)

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  3. Muito obrigado! Fico imensamente feliz por saber que gostou ^^

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  4. Adorei o texto, muito lindo e bem escrito querida :D
    Tenha uma ótima semana!!
    Beijos

    lolaporlola.blogspot.com

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  5. Um sótão cheio de lembranças
    Escrevi no pó palavras sem nexo
    Retirei uma cartola de uma caixa de cartão
    E senti ao toque o poder da ilusão

    Ilusões…
    Um cavalo de pau perdido ao carrocel
    Uma estola de um bicho qualquer
    Uma escultura talhada a cisel

    Uma foto a preto e branco
    De uma mulher sem rosto
    Uma janela virada para nenhum lado
    Uma traquitana a imitar o sol-posto

    Terno abraço

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  6. E a gente fica aqui, imaginando...

    Lindo, Moni.

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  7. _ganhar um novo aprendizado da surpreendente e misteriosa vida! Que belo e apoteótico final, o importante dos seus textos é q prendem o leitor(a) até o final, vc tem o poder de instigar a expectativa ea imaginação de quem lê, vc tem sempre um começo interessante, um meio provocante e um final normalmente belo, pra vc linda poetiza mais uma vez meu mimo e bjos, bjos e bjosssssssssssss

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    1. Seus comentários são sempre tão belos e inspiradores para mim! Obrigado por gostar tanto assim do que escrevo, isso faz de mim uma pessoa realizada! Obrigada a vc, e claro, a todos que passam por aqui!

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  8. Moniii, obrigada pela visitinhaa e pelos elogios. Realmente somente o amor de Deus, esse aconchego tão ímpar que vem dEle nos preenchee. Que bom que se identificoou, fico feliz por saber disso.
    Seu cantinhoo é uma belezuraa.. Adoro isso de frases, imagens que completam as fotos e o seu blog tem disso.. fora os textos que preciso nem falar que são ótimos !!! Ja te sigoo, claroo !!! Volte sempre no meu cantinhoo, beijooos, bom final de semana. Fique com Deus

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  9. Olá querida, passando para lhe desejar um ótimo fds :D

    Beijos

    lolaporlola.blogspot.com

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  10. A vida sem dificuldades é a mesma coisa que a vida sem aprendizado, e tem também, a questão das coisas simples da vida, porque elas sim, nos fazem bem e muitas vezes a gente precisa levar um "susto" pra valorizá-las, não é!
    Gostei muito do teu cantinho.. muito aconchegante!
    Um beijo no coração, fique com Deus!

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  11. Olá Moni! Vim retribuir o carinho e estou encantada!
    Lindo texto! Enquanto lia sentia-me envolvida por cada frase. Obrigada por me proporcionar uma leitura tão prazerosa!

    Beijos no coração

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  12. Nossa que texto Maravilhoso *-* Fiquei sem palavras, alías, sempre fico, você sempre tira as minhas palavras , já me traduz em um pequeno texto! E esse, em especial, é a mais pura verdade, o erro não é bem um erro e a tristeza é sempre passageira... Depois dessa chuva com certeza radiou um sol daqueles ou quem sabe não apareceu até um arco-íris ? *-*

    http://help-adolecentro.blogspot.com.br/

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  13. Por incrível que pareça, são nesses momentos que mais aprendemos e, também, criamos força. Errar é aprender. Chorar ajuda limpar alma e criar uma força para (re)começar. Adorei a postagem. Beijinhos.

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  14. Your web looks absolutely gorgeous. I was thinking to follow each other. Tell me what you think :X

    Regards!

    FashionSpot.ro

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  15. Olá.
    Adorei seu blog,parabéns.
    Até mais

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  16. Adoorei o Texto Moni, mt mt lindo mesmo.
    Já estava com saudades de passar por aqui (;
    bjs

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  17. Que perfeição Moni,
    a gente lê e fica qui imaginando cada cena,se identifica, sente.

    E quando li esse trecho : "Riu como não fazia há muito tempo, riu com o coração e não apenas com os lábios. Um riso espontâneo do qual ela não sabia o quanto sentia falta." Pensei: quanto tempo que isso não me acontece, aah que saudade de mim... assim.

    Beijo, e obrigada pela sua visita no meu blog. Volte sempre.

    Além das Palavras - umpoucodemimsm.blogspot.com

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  18. Moni,

    É estranho. Em cada palavra me senti como se fizesse parte do texto, vivendo a situação. São poucas as pessoas que escrevem tão bem e com tanta veracidade quanto você.

    Um grande beijo,

    Pedro Menuchelli

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  19. Meus queridos, que tornam esse blog a maravilha que tem sido, MUITO OBRIGADA pela participação de todos vcs!

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